A história de um município sonhado, desenhado e estruturado antes mesmo de receber seus primeiros habitantes. É com essa premissa fascinante que o novo livro de José Augusto Fiorin convida o leitor a um mergulho profundo nas raízes de Ijuí, localizada no noroeste gaúcho. Mais do que um resgate cronológico, a obra apresenta uma análise minuciosa de como o planejamento estratégico e a pluralidade humana forjaram a identidade de uma das cidades mais singulares do Sul do Brasil.
Logo em sua introdução, o livro desconstrói a ideia de que as cidades brasileiras nascem apenas de aglomerados espontâneos. Concebida em 1890, nos alvores da República, Ijuí foi pensada para ser a principal porta de entrada da colonização na região. A obra de Fiorin revela, por exemplo, os bastidores políticos e econômicos que definiram a localização exata da cidade — que acabou não se instalando às margens do rio Ijuí devido a um complexo jogo de interesses da época.
A "Babel do Novo Mundo"
Um dos pontos altos do livro é a exploração do processo imigratório, detalhado na segunda parte da obra. Ijuí tornou-se um verdadeiro laboratório de convivência humana. Imigrantes alemães, italianos, poloneses, lituanos, austríacos e letos encontraram-se no mesmo pedaço de chão com os "nacionais" (caboclos e luso-brasileiros) que já habitavam a região.
Fiorin narra os desafios dessa ocupação, desde as disputas por terras e a adaptação ao clima até a consolidação de uma sociedade tão diversa que, décadas mais tarde, seria legitimamente reconhecida como a "Capital Mundial das Etnias".
Trilhos para o progresso
A expansão econômica também ganha destaque. A obra aponta o ano de 1911, com a chegada da ferrovia, como um verdadeiro divisor de águas. O trem não apenas rompeu o isolamento, mas impulsionou a agricultura — que passou da subsistência para a modernização com o trigo e a soja — e fomentou o nascimento de uma indústria resiliente. O livro resgata a memória de empresas pioneiras, a fundação de bairros industriais e a construção da usina hidrelétrica em 1923, marcos do pioneirismo local.
Lideranças, fé e educação
A estrutura social e política de Ijuí não foi esquecida. A quarta parte do livro é dedicada aos pilares institucionais da cidade. Fiorin documenta desde a fundação das primeiras comunidades religiosas (católicas e evangélicas) no final do século XIX até a vocação educacional do município, que culminou na criação da UNIJUÍ.
Além disso, a obra oferece um registro histórico de inestimável valor ao compilar a trajetória de seus gestores públicos, de Augusto Pestana a líderes contemporâneos, acompanhada de um robusto anexo com os dados de todos os processos eleitorais do município desde a sua emancipação.
Um espelho para o futuro
Dividido em cinco partes centrais e um anexo documental, o livro de José Augusto Fiorin é uma leitura obrigatória para estudantes, pesquisadores e apaixonados por história. Segundo o próprio prefácio da obra, o livro não busca apenas documentar os fatos, mas "celebrar a resiliência, a capacidade de adaptação e o espírito empreendedor dos ijuienses".
Ao conectar o ambicioso projeto cartográfico de 1890 aos desafios contemporâneos da cidade, o autor entrega um trabalho definitivo sobre como a visão de futuro, aliada à diversidade, é capaz de edificar uma comunidade próspera e de identidade inconfundível.
Professor Fiorin